Mastodonte do Sul do Rio da Prata
(Notiomastodon platensis)
Paleoartes:
- AVPHAnimação
Introdução
O Mastodonte do Sul do Rio da Prata (Notiomastodon platensis) foi o proboscídeo mais amplamente distribuído do Quaternário da América do Sul e um dos herbívoros de grande porte mais comuns da megafauna pleistocênica do continente. Trata-se de um gomfotério extinto da família Gomphotheriidae, endêmico da América do Sul, que viveu desde o Pleistoceno Médio até o início do Holoceno, entre aproximadamente 530.000 e 6.000 anos atrás. Popularmente conhecido como "mastodonte sul-americano" ou "gomfotério das planícies", era um dos maiores mamíferos terrestres de seu tempo no continente, comparável em porte ao elefante-asiático atual. Junto com a preguiça-gigante Eremotherium laurillardi, N. platensis figura entre os megamamíferos herbívoros mais frequentemente encontrados em sítios fossilíferos pleistocênicos do Brasil. Sua trajetória taxonômica é marcada por intensa controvérsia, tendo sido descrito sob os nomes de Haplomastodon e Stegomastodon ao longo de décadas antes da consolidação do nome Notiomastodon.
Etimologia
O nome do gênero Notiomastodon foi proposto por Ángel Cabrera em 1929, sendo formado pelas palavras gregas notios, que significa "do sul" ou "meridional", e mastodon, que por sua vez deriva de mastos ("mamilo") e odon ("dente"), em referência às cúspides arredondadas características dos dentes dos mastodontes. O nome completo do gênero pode ser traduzido como "mastodonte do sul", em alusão direta à distribuição geográfica do animal nas planícies da América do Sul. O epíteto específico platensis é uma referência à região do Rio da Prata (em latim, Plata), na Argentina, onde os primeiros fósseis da espécie foram encontrados. O nome completo pode ser traduzido como "mastodonte do sul do Rio da Prata".
Descrição
Notiomastodon platensis possuía as características típicas dos gomfotérios brevirostrinos: crânio alto e fortemente abaulado, mandíbula inferior curta (resultado da perda das presas inferiores presentes em gomfotérios mais primitivos), e presas superiores espessas e robustas, com comprimento e curvatura variáveis entre indivíduos. O padrão bunodontal de mastigação, com cúspides arredondadas nos molares, é associado a dieta generalista com consumo tanto de gramíneas quanto de folhagem. O crânio exibia morfologia curta e alta, característica dos gomfotérios brevirostrinos, diferindo do perfil mais horizontalizado dos elefantes atuais. Pegadas fósseis atribuídas à espécie indicam cinco unhas nos pés dianteiros e ao menos três nos traseiros.
Em termos de dimensões, os espécimes de N. platensis atingiam porte semelhante ao do elefante-asiático atual. A altura nos ombros era de aproximadamente 2,5 metros, com os machos maiores podendo chegar a 2,8 metros. O comprimento corporal estimado é de aproximadamente 4 a 5 metros. As estimativas de peso variam conforme o estudo e o espécime: a massa corporal típica ficava entre 3 e 4 toneladas, podendo os maiores indivíduos atingir até 6 toneladas.
Em relação ao modo de vida, N. platensis era um herbívoro generalista capaz de consumir diferentes tipos de plantas conforme o ambiente local. Análises de microdesgaste dentário e de microfósseis vegetais extraídos de cálculo dentário de espécimes do Pleistoceno de Águas de Araxá, em Minas Gerais, identificaram coníferas, ervas do gênero Polygonum e samambaias polipodiaceas como base da dieta. Análises isotópicas de diferentes regiões da América do Sul revelam um quadro mais complexo: espécimes do Pleistoceno Superior do norte e do centro do continente, como os do Equador e do Gran Chaco, apresentavam predominância de plantas C4 (gramíneas tropicais), enquanto espécimes da região pampeana consumiam predominantemente plantas C3 (vegetação arbustiva e florestal), com populações de áreas intermediárias exibindo dieta mista. No Pleistoceno Médio, as populações do sul também exibiam dieta mista, havendo uma tendência à especialização em gramíneas durante o Pleistoceno tardio.
A estrutura populacional de N. platensis foi estimada como semelhante à dos elefantes-africanos modernos, com grupos mistos compostos por indivíduos jovens e adultos de várias faixas etárias. O sítio de Águas de Araxá revelou uma proporção incomum de indivíduos senis e adultos maduros, com baixa percentagem de juvenis, sugerindo um evento de mortalidade coletiva possivelmente associado a um longo período de baixa umidade que concentrou os proboscídeos ao redor de refúgios hídricos. Como um dos maiores herbívoros da América do Sul pleistocênica, N. platensis era provavelmente um importante dispersor de sementes de plantas como bambus e palmeiras. Um estudo de 2025 publicado na revista Nature Ecology & Evolution apresentou evidências fósseis de frugivoria por gomfotérios sul-americanos, documentando seu papel ecológico como dispersores de frutos de grande porte, com impacto duradouro nos ecossistemas do continente.
O ambiente preferencial de N. platensis eram as planícies baixas, predominantemente florestas secas e campos, com distribuição que se sobrepõe, durante o Último Máximo Glacial, aos habitats de floresta seca identificados pelos Modelos de Distribuição de Paleoespécies. A espécie evitava as regiões andinas de altitude elevada, que eram o território preferencial do gomfotério andino Cuvieronius hyodon, com o limite de distribuição entre as duas espécies situado entre 37 e 38 graus de latitude sul.
Descoberta
Os primeiros fósseis atribuídos à espécie foram coletados nas margens do Rio Paraná, em San Nicolás de los Arroyos, na Província de Buenos Aires, Argentina. Com base em um fragmento de presa de um indivíduo adulto, catalogado sob o número MLP 8-63, Florentino Ameghino publicou em 1888 o nome Mastodon platensis, descrevendo a espécie formalmente pela primeira vez. Em 1889, Ameghino ampliou a descrição em sua obra monumental sobre os mamíferos fósseis da Argentina, listando várias espécies que considerava análogas ao Mastodon de Cuvier.
Em 1929, Ángel Cabrera criou o gênero Notiomastodon e descreveu a nova espécie N. ornatus a partir de uma mandíbula e um fragmento de presa encontrados em Playa del Barco, próxima a Monte Hermoso, também na Província de Buenos Aires, catalogados como MACN 2157. Ao longo das décadas seguintes, a taxonomia dos gomfotérios sul-americanos foi alvo de intensa controvérsia, com formas como Haplomastodon waringi, H. chimborazi e N. ornatus sendo reconhecidas em diferentes momentos como espécies distintas antes de serem consolidadas como sinônimos de N. platensis. A revisão taxonômica definitiva do gênero foi conduzida por Dimila Mothé e colaboradores no início dos anos 2010, que, após exame de abundante material de proboscídeos sul-americanos, concluiu que havia apenas um gênero de proboscídeo nas planícies da América do Sul durante o Pleistoceno, além de Cuvieronius, reconhecendo uma única espécie válida dentro de Notiomastodon.
Fósseis da espécie foram registrados em grande número de países sul-americanos, incluindo Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia, Brasil, Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai. No Brasil, os registros são especialmente abundantes na Região Intertropical Brasileira, com sítios notáveis em Minas Gerais, Bahia, Paraíba e Rondônia. Em 2019, um exemplar jovem proveniente do Brasil foi descrito com um artefato lítico encravado no crânio, fornecendo evidência de que a caça por populações humanas pode ter contribuído para a extinção da espécie.
Classificação
A análise filogenética de Mothé e colaboradores, publicada em 2012, resultou em dois cenários igualmente parcimoniosos que sustentam a monofilia dos gomfotérios sul-americanos Cuvieronius e Notiomastodon, inseridos em uma linhagem coesa dentro da família Gomphotheriidae, com os Gomphotheriidae como um todo sendo parafiléticos em relação aos elefantes e mastodontes. Estudos posteriores de Prado e colaboradores (2015) identificaram Notiomastodon como descendente de Cuvieronius na América do Sul durante o Pleistoceno, após divergência durante a Grande Troca Biótica Americana (GABI 2).
A classificação completa da espécie é: Reino Animalia, Filo Chordata, Classe Mammalia, Ordem Proboscidea, Família Gomphotheriidae, Gênero Notiomastodon, Espécie Notiomastodon platensis. O parente mais próximo e com mais afinidade filogenética é Cuvieronius hyodon, o gomfotério andino sul-americano, de distribuição predominantemente nas regiões de altitude elevada dos Andes, de quem Notiomastodon provavelmente descendeu. Outros gomfotérios notáveis da família Gomphotheriidae incluem Gomphotherium, gênero ancestral do Mioceno da Eurásia e América do Norte; Rhynchotherium, forma norte-americana do Mioceno tardio; e Amahuacatherium peruvium, forma do Mioceno tardio do Peru cuja validade taxonômica permanece debatida.
Dados do Megamamífero:
- Nome: Mastodonte do Sul do Rio da Prata
- Nome Científico: Notiomastodon platensis
- Época: Pleistoceno e Holoceno
- Local onde viveu: América do Sul
- Peso: Cerca de 6,0 toneladas
- Tamanho: 2,8 metros de altura e 5,0 metros de comprimento
- Alimentação: Herbívora
Classificação Científica:
- Reino: Animalia
- Filo: Chordata
- Classe: Mammalia
- Infraclasse: Placentalia
- Ordem: Proboscidea
- Família: †Gomphotheriidae
- Gênero: †Notiomastodon
- Espécie: †Notiomastodon platensis , .
Referências:
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