Atlas Virtual da Pré-História

Dickinsonia

(Dickinsonia costata)

Dickinsonia costata - AVPH

Paleoartes:

- AVPH

Animação

Introdução

O Dickinsonia (Dickinsonia costata) é um dos fósseis mais emblemáticos do Ediacarano, o último período do Neoproterozoico, e a espécie-tipo do gênero Dickinsonia. Viveu há cerca de 555 milhões de anos em ambientes marinhos rasos, e seus fósseis são abundantes no Membro Ediacara do Quartzito Rawnsley, nas Montanhas Flinders, no sul da Austrália, além de ocorrências na região do Mar Branco (Rússia) e na Ucrânia. Trata-se de um organismo achatado, de contorno oval e corpo dividido em módulos transversais, que viveu cerca de 15 milhões de anos antes da Explosão Cambriana. Sua natureza biológica foi debatida por décadas, com propostas que o compararam a uma água-viva, a um verme, a um líquen e a um protista. Hoje, a interpretação mais aceita é a de um animal móvel de fundo marinho, possivelmente próximo da base da árvore evolutiva dos animais, embora esse ponto ainda seja controverso.

Etimologia

O nome do gênero Dickinsonia é uma homenagem a Ben Dickinson, então Diretor de Minas da Austrália do Sul e chefe do departamento governamental que empregava o geólogo Reg Sprigg, autor da descrição. O epíteto específico costata vem do latim costatus, que significa “com costelas” ou “costelado”, provavelmente em alusão aos módulos transversais em forma de costelas que ornamentam o corpo do fóssil. O nome completo pode ser traduzido livremente como “a Dickinsonia costelada”.

Descrição

Dickinsonia costata tinha corpo achatado, de contorno oval a arredondado, levemente mais largo em uma das extremidades, com aspecto semelhante a uma folha. O corpo era dividido por uma linha mediana em duas fileiras de módulos transversais (também chamados de isômeros), semelhantes a costelas, que aumentavam em largura e comprimento em direção à extremidade mais larga. Uma região anterior não dividida, chamada de “unidade anterior” (AMU), é interpretada como a porção frontal do organismo. Em comparação com Dickinsonia tenuis, a espécie possui corpo proporcionalmente mais arredondado, com módulos menos numerosos e mais largos, e a unidade anterior relativamente maior.

Em termos de dimensões, os exemplares do gênero Dickinsonia variam de menos de 5 mm a mais de 800 mm de comprimento, sendo que D. costata apresenta tamanho máximo e médio menores que os de D. tenuis. O holótipo da espécie mede 68 mm de comprimento. Quanto à altura, o animal era praticamente laminar, com espessura de uma fração de milímetro a poucos milímetros, o que o tornava comparável a um tapete muito fino sobre o fundo marinho. Não há estimativa de massa corporal publicada para a espécie, já que o organismo era inteiramente mole e conhecido apenas por impressões e moldes em arenito. O corpo era provavelmente em forma de saco, com uma camada externa resistente, mas não mineralizada. Estudos indicam a presença de colágeno nos tecidos e a ausência de boca, ânus e trato digestivo.

O crescimento da espécie foi estudado a partir de mais de 900 espécimes medidos na Austrália do Sul. Os resultados mostram que o desenvolvimento era altamente regulado, com adição e expansão de módulos ao longo do eixo central, de modo a manter o contorno ovoide durante toda a vida. Provavelmente tinha crescimento indeterminado, com desaceleração na adição de novos módulos nas fases tardias. Exemplares deformados da Rússia indicam que o animal era capaz de regenerar partes danificadas do corpo.

Em relação ao ambiente e modo de vida, D. costata habitava fundos marinhos rasos e arenosos, cobertos por tapetes microbianos que dominavam a paisagem submarina do Ediacarano e que também favoreceram a preservação dos fósseis. A espécie coexistia no mesmo ambiente com D. tenuis, e o menor tamanho máximo e a maior abundância de D. costata sugerem uma vida mais curta e taxas reprodutivas mais elevadas. O ecossistema incluía outros organismos da biota de Ediacara, como Kimberella, Spriggina e Tribrachidium.

O animal era bentônico e móvel. Fósseis de pegadas, atribuídos ao icnogênero Epibaion, mostram que ele permanecia parado sobre o tapete microbiano, digeria a matéria orgânica por baixo do corpo e depois se deslocava, deixando uma depressão no formato de seu contorno. Sequências dessas marcas indicam deslocamento para a frente, provavelmente por contrações musculares ondulatórias, e as impressões fósseis apontam orientações variadas, o que mostra movimento próprio e não arrasto por correntes. Estima-se que o animal pudesse percorrer dezenas de metros ao longo da vida. Em termos de dieta, portanto, não era herbívoro, carnívoro nem onívoro no sentido convencional: era um consumidor de tapetes microbianos, que se alimentava por digestão externa e absorção pela face inferior do corpo.

Quanto ao comportamento social, não há evidência de vida em grupo coordenada. Camadas fossilíferas, como as do Parque Nacional Nilpena Ediacara, preservam centenas de espécimes do gênero, mas a orientação variada dos indivíduos indica que cada um se deslocava e se alimentava de forma independente, em populações densas, sem interação social conhecida.

Descoberta

Os primeiros fósseis foram encontrados em 1946 pelo geólogo Reg Sprigg nas Colinas de Ediacara, cerca de 30 km a oeste de Beltana, nas Montanhas Flinders, na Austrália do Sul. A descrição formal foi publicada em 1947 na Transactions of the Royal Society of South Australia, em um trabalho intitulado “Early Cambrian (?) jellyfishes from the Flinders Ranges”. Sprigg interpretou o fóssil como a impressão de uma água-viva do Cambriano inicial e descreveu também, na mesma publicação, o gênero Papilionata, hoje considerado sinônimo de Dickinsonia. O holótipo de D. costata está depositado na coleção Sprigg do Museu da Austrália do Sul, em Adelaide, que reúne cerca de 100 fósseis ediacaranos coletados por ele.

Em 1949, Sprigg ampliou o estudo e sugeriu que a simetria bilateral do fóssil poderia indicar maior complexidade, sem classificá-lo firmemente. Em 1955, Harrington e Moore o incluíram na classe Dipleurozoa. Após a descoberta de Charnia, na Inglaterra, em 1958, os fósseis australianos passaram a ser reconhecidos como pré-cambrianos, e Dickinsonia foi então interpretado por décadas como um verme anelídeo. Em 1966, Glaessner e Wade redescreveram a fauna de Ediacara a partir de coleções muito maiores e propuseram a sinonímia de várias formas descritas anteriormente.

Em 1985, Fedonkin e Cope criaram o filo Proarticulata para abrigar organismos ediacaranos de simetria deslizante, incluindo Dickinsonia. Em 2010, Sperling e Vinther propuseram afinidade com os placozoários, com base nos traços de alimentação. Em 2013, Retallack sugeriu que o organismo seria um líquen terrestre, hipótese amplamente rejeitada pelos demais autores. Em 2017, Evans, Droser e Gehling publicaram o estudo de crescimento de D. costata, e Hoekzema e colaboradores demonstraram, por análise quantitativa do desenvolvimento, que o gênero era um metazoário. Em 2018, Bobrovskiy e colaboradores identificaram colesterol em espécimes russos, evidência bioquímica de afinidade animal que foi questionada por outros pesquisadores. Em 2019, Evans e colaboradores demonstraram a mobilidade do animal e sua alimentação sobre tapetes orgânicos. Em 2023, Evans e colaboradores reduziram as cinco espécies até então reconhecidas na Austrália do Sul para apenas duas, D. costata e D. tenuis. Restos indeterminados, possivelmente atribuíveis a D. costata ou D. tenuis, foram também registrados na Formação Blueflower, no Canadá, em estudo publicado em 2026.

Classificação

A posição filogenética de Dickinsonia costata continua sendo um dos problemas mais debatidos da paleontologia. Hoje, a maioria dos pesquisadores considera o gênero um animal, possivelmente próximo da base dos bilatérios ou um placozoário ou eumetazoário primitivo. Evans e colaboradores (2017) argumentaram que, embora apresente características de desenvolvimento bilateral, o animal não seria um ancestral direto dos bilatérios modernos, representando antes um grupo extinto que compartilhava com eles um conjunto de genes ancestrais. A ausência de boca, ânus e intestino exclui sua inclusão entre os bilatérios do grupo-coroa.

A classificação completa da espécie é: Reino Animalia, Filo Proarticulata (posição debatida), Classe Dipleurozoa, Família Dickinsoniidae, Gênero Dickinsonia, Espécie Dickinsonia costata. Entre as demais espécies do gênero estão Dickinsonia tenuis, da Austrália e da Rússia, Dickinsonia menneri e Dickinsonia densa, da Rússia, além de Dickinsonia aurorae e Dickinsonia serpentina, russas, ainda pendentes de validação formal. São considerados sinônimos de D. costata os nomes Dickinsonia elongata, Dickinsonia minima, Dickinsonia spriggi e Papilionata eyrei. Entre os organismos ediacaranos mais semelhantes, por apresentarem corpo segmentado, estão Vendia, Yorgia e Spriggina.

Dados do Animal:

  • Nome: Dickinsonia
  • Nome Científico: Dickinsonia costata
  • Época: Ediacarano
  • Local onde viveu: Ásia e Oceania
  • Peso: Cerca de 1,0 kilograma
  • Tamanho: 800 milimetros de comprimento
  • Alimentação: Microbívora

Classificação Científica:

  • Reino: Animalia
  • Filo: †Proarticulata
  • Classe: †Dipleurozoa
  • Família: †Dickinsoniidae
  • Gênero: †Dickinsonia
  • Espécie: †Dickinsonia costata Sprigg, 1947.

Referências:

  • - BOBROVSKIY, I. et al. Ancient steroids establish the Ediacaran fossil Dickinsonia as one of the earliest animals. Science, v. 361, n. 6408, p. 1246-1249, 2018. DOI: 10.1126/science.aat7228.
  • - EVANS, S. D.; DROSER, M. L.; GEHLING, J. G. Highly regulated growth and development of the Ediacara macrofossil Dickinsonia costata. PLOS ONE, v. 12, n. 5, e0176874, 2017. DOI: 10.1371/journal.pone.0176874.
  • - EVANS, S. D. et al. Slime travelers: early evidence of animal mobility and feeding in an organic mat world. Geobiology, v. 17, n. 5, p. 490-509, 2019. DOI: 10.1111/gbi.12351.
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  • - SPERLING, E. A.; VINTHER, J. A placozoan affinity for Dickinsonia and the evolution of late Proterozoic metazoan feeding modes. Evolution & Development, v. 12, n. 2, p. 201-209, 2010. DOI: 10.1111/j.1525-142X.2010.00404.x.
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