Crocodilo Terrestre de Bauru
(Baurusuchus salgadoensis)
Paleoartes:
- AVPHAnimação
Introdução
O Baurusuchus (Baurusuchus salgadoensis) foi um dos maiores e mais temíveis predadores terrestres que viveu no Brasil entre 90 e 83,5 milhões de anos atrás, no Cretáceo Superior. Trata-se de um crocodilomorfo mesoeucrocodiliano da família Baurusuchidae, que diferentemente dos crocodilos atuais, de hábitos predominantemente aquáticos, era um predador terrestre. Ocupando o topo da cadeia alimentar em seu ecossistema, esse animal disputava espaço com grandes dinossauros terópodes na paisagem árida do interior do Brasil pré-histórico.
Etimologia
O nome do gênero Baurusuchus deriva do Grupo Bauru brasileiro, formação geológica onde os primeiros fósseis foram encontrados, combinado ao termo grego souchos, em referência ao deus crocodilo egípcio Sobek e comumente utilizado na taxonomia de répteis semelhantes a crocodilos. O nome pode ser traduzido como "crocodilo de Bauru". O epíteto específico salgadoensis homenageia o município de General Salgado, em São Paulo, local onde o holótipo foi encontrado.
Descrição
Baurusuchus salgadoensis distingue-se de B. pachecoi principalmente por seu maior porte geral, com um crânio de aproximadamente 430 mm de comprimento, borda posterior do crânio mais reta, presença de fenestra anteorbital, narinas externas duplas separadas por um septo ósseo, fenestras supratemporais maiores em relação à órbita, e dentes mais arredondados e menos crenulados. O rostro de Baurusuchus salgadoensis correspondia a cerca de 65% do comprimento total do crânio, sendo classificado como rostro "normal", próximo da categoria "longo".
Considerando a proporção entre crânio e corpo observada em outros baurussuquídeos de esqueleto mais completo, como Stratiotosuchus, o comprimento total do corpo de Baurusuchus salgadoensis é estimado em cerca de 3 a 3,5 metros, com altura de aproximadamente 70 a 90 cm na altura do quadril. A posição das narinas externas não era compatível com hábitos anfíbios como os dos crocodilianos atuais, e o focinho e os dentes eram lateralmente comprimidos, de maneira semelhante aos terópodes, características que sustentam a hipótese de um estilo de vida predominantemente terrestre. Os pterigoides alongados e fortemente curvados permitiam a fixação de músculos poderosos, capazes de fechar a mandíbula muito rapidamente, com o crânio de formato oreinirostral (em domo) bem adaptado para resistir a tensões mecânicas, produzindo uma força de mordida consideravelmente forte para seu tamanho, entre 2.542 e 3.088 newtons em B. salgadoensis, comparável à do jacaré-americano atual.
A morfologia do crânio e dos dentes indica que as estratégias de mordida de Baurusuchus eram semelhantes às do dragão-de-komodo, incluindo emboscar a presa, mordê-la e puxar para trás os dentes serrilhados em formato de lâmina, possivelmente sacudindo a presa com violência, auxiliado por suas espinhas neurais cervicais alargadas, que serviam como grandes pontos de fixação muscular.
Descoberta
O menino Clésio Felício de 13 anos encontrou um dente em um terreno próximo a sua escola em General Salgado interior de São Paulo e achando ser de bezerro o levou ao seu professor de Ciências João Tadeu Arruda que verificando se tratar de um fóssil resolveu, procurar especialistas para analisar o achado. Baurusuchus salgadoensis foi descrito a partir do holótipo MPMA 62-0001-02, encontrado na Fazenda Buriti, Distrito de Prudêncio e Morais, município de General Salgado, Estado de São Paulo, Brasil, em estrato sedimentar da Bacia Bauru, Formação Adamantina, datado do Cretáceo Superior (Turoniano-Santoniano). O holótipo preserva um crânio quase completo e parte do esqueleto pós-craniano, com material adicional referido catalogado como UFRJ DG 285-R. Foram encontrados restos de ossos de 11 esqueletos quase completos.
A espécie foi formalmente descrita em 2005 por Ismar de Souza Carvalho, Antonio Celso de Arruda Campos e Paulo Henrique Nobre, em publicação na revista científica Gondwana Research. O achado representou uma contribuição significativa para o entendimento da fauna terrestre do Cretáceo brasileiro, complementando o material originalmente descrito por Llewellyn Ivor Price em 1945 para a espécie-tipo do gênero, Baurusuchus pachecoi. Estudos posteriores, como os de Montefeltro, Larsson e Lange (2011) e de Srinivas e colaboradores (2025), utilizaram o material de B. salgadoensis em análises filogenéticas e biomecânicas mais amplas sobre a evolução do crânio dos crocodilomorfos.
Classificação
Baurusuchus é o gênero-tipo da família Baurusuchidae, grupo de crocodilianos com crânios alongados e lateralmente comprimidos. Outros membros dessa família no Cretáceo da América do Sul incluem Stratiotosuchus e Cynodontosuchus, mas baurussuquídeos também são conhecidos do Cretáceo da Ásia (Paquistão) e do Terciário da Europa. Um estudo de 2011 estabeleceu uma nova subfamília chamada Baurusuchinae, com sete características diagnósticas que incluem o porte moderado e os frontais largos; o trabalho referiu apenas Stratiotosuchus maxhechti e Baurusuchus a essa subfamília, tornando Stratiotosuchus o parente mais próximo conhecido de Baurusuchus até então.
A classificação completa da espécie é: Reino Animalia, Filo Chordata, Classe Reptilia, Clado Archosauria, Clado Pseudosuchia, Clado Crocodylomorpha, Clado Notosuchia, Família Baurusuchidae, Subfamília Baurusuchinae, Gênero Baurusuchus, Espécie Baurusuchus salgadoensis. Entre os parentes próximos está também Pabweshi, da Formação Pab, no Paquistão. Um estudo de 2014 incluiu uma nova espécie chamada Aplestosuchus sordidus na subfamília Baurusuchinae, sustentando um parentesco mais próximo entre Baurusuchus e Stratiotosuchus do que com essa nova espécie; o mesmo estudo questionou a posição de B. albertoi dentro do gênero Baurusuchus, considerando-o mais próximo de Aplestosuchus.
Dados do crocodilomorfo:
- Nome: Baurusuchus
- Nome Científico: Baurusuchus salgadoensis
- Época: Cretáceo
- Local onde viveu: Brasil
- Peso: Cerca de 115 quilogramas
- Tamanho: 0,9 metros de altura e 3,5 metros de comprimento
- Alimentação: Carnívora
Classificação Científica:
- Reino: Animalia
- Filo: Chordata
- Classe: Reptilia
- Ordem: Crocodylomorpha
- Família: †Notossúquios
- Gênero: †Baurusuchus
- Espécie: †Baurusuchus salgadoensis Carvalho et al., 2005.
Referências:
- - BONAPARTE, J. F. Cretaceous tetrapods of Argentina. Münchner Geowissenschaftliche Abhandlungen, v. 30, p. 73-130, 1996.
- - CARVALHO, I. S.; CAMPOS, A. C. A.; NOBRE, P. H. Baurusuchus salgadoensis, a new Crocodylomorpha from the Bauru Basin (Cretaceous), Brazil. Gondwana Research, v. 8, n. 1, p. 11-30, 2005.
- - DUMONT JR., M. V.; SANTUCCI, R. M.; ANDRADE, M. B.; OLIVEIRA, C. E. M. Paleoneurology of Baurusuchus (Crocodyliformes: Baurusuchidae), ontogenetic variation, brain size, and sensorial implications. The Anatomical Record, v. 305, n. 10, p. 2670-2694, 2022.
- - GODOY, P. L.; MONTEFELTRO, F. C.; NORELL, M. A.; LANGER, M. C. An additional baurusuchid from the Cretaceous of Brazil with evidence of interspecific predation among Crocodyliformes. PLOS ONE, v. 9, n. 5, e97138, 2014.
- - MONTEFELTRO, F. C.; LARSSON, H. C. E.; LANGE, M. C. A new baurusuchid (Crocodyliformes, Mesoeucrocodylia) from the Late Cretaceous of Brazil and the phylogeny of Baurusuchidae. PLOS ONE, v. 6, n. 7, e21916, 2011.
- - MONTEFELTRO, F. C.; LAUTENSCHLAGER, S.; GODOY, P. L.; FERREIRA, G. S.; BUTLER, R. J. A unique predator in a unique ecosystem: modelling the apex predator within a Late Cretaceous crocodyliform-dominated fauna from Brazil. Journal of Anatomy, v. 237, n. 2, p. 323-333, 2020.
- - NASCIMENTO, P. M.; ZAHER, H. A new species of Baurusuchus (Crocodyliformes, Mesoeucrocodylia) from the Upper Cretaceous of Brazil, with the first complete postcranial skeleton described from the family Baurusuchidae. Papéis Avulsos de Zoologia, v. 50, n. 21, p. 323-361, 2010.
- - PRICE, L. I. A new reptile from the Cretaceous of Brazil. Departamento Nacional da Produção Mineral, Notas Preliminares e Estudos, Rio de Janeiro, n. 25, p. 1-8, 1945.
- - SRINIVAS, A.; BRIGHT, J. A.; CUNNINGHAM, J. A.; TAVARES, S. A. S.; RICARDI-BRANCO, F.; CARVALHO, I. S.; IORI, F. V.; RAYFIELD, E. J. Constraints and adaptations in crocodyliform skull evolution. Proceedings of the Royal Society B, v. 292, n. 2058, 20251773, 2025.


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